Domingo, Julho 29, 2007

AS FORMAS NOMINAIS

Fernando acordou querendo.
Não sabia exatamente o quê.
Mas prometeu para si que não mais procuraria
enquanto não soubesse o que seria
aquilo que o afligia, mas que não aparecia.
Passou o dia tentando, comendo, bebendo, andando e,
descobrindo, enfim, o que queria,
parou.
Demorou-se decidindo passar o dia seguinte procurando
o que resolvera querer.

Aparecida, tida como preferida por toda a vida,
tinha sido educada em escola abastada,
criada, rodeada e mimada por gente alinhada.
Acertado era seu destino, feito seu futuro e resolvida sua ventura.
Ela, aparentada com barões, duques e reis,
foi, recém-nascida, prometida, enoivada,
a um filho herdeiro de terras avizinhadas.

Horas iam-se seguindo,
e, após a última da noite,
o dia, nascendo; Fernando, dormindo.
Ainda sonhando, foi até o espelho cambaleando.
Por um instante, os dentes escovando,
ia se esquecendo do que, no dia agora findo,
decidira ficar procurando.
Tomando banho, vendo a água escorrendo,
pelo ralo descendo, perdeu-se de si idéias tendo
de que nunca conseguiria ser como ela
que é ao mesmo tempo que está sendo.
E ele, estando sendo, percorrendo, se perdendo,
tateia o que quer que de sólido se fez,
pronto, terminado, para, nisso grudado,
ser também isso um dia de cada vez.

Fernando, indo, caminhando,
de quando em quando tropeçando,
querendo, procurando, mas não encontrando,
acabou se cansando e voltando
pro lugar de onde, um dia refletindo,
foi sumindo com a nova vida que vinha vindo.
O dia anoitecendo, a lua crescendo e as estrelas brilhando
fizeram Fernando ir-se angustiando,
pois estava parecendo que, por estar tanto querendo,
algum deus birrento estava-o privando
de alcançar o seu intento.

Sendo quem era, alguém que nunca tivera sido,
mas que seria no dia em que chegasse
o dia seguinte de uma rotina entediante,
Fernando,
bisbilhotando os passantes,
e resolvendo deixar-se ali,
não querendo mais estar sendo
e decidindo definitivamente ser,
foi de vez iluminado, arrebatado por um olhar manso,
parado, decidido, convencido, concentrado,
o olhar dela, dela que viria um dia,
ela, tida como preferida por toda a vida, ela,
Aparecida.

(Na praça, o tempo, medroso,
o vento, calado, o céu, escondido,
o mundo, enfim, esperava por algo.)

Aparecida dava suas passadas de volta para o carro,
estacionado, desligado, quando Fernando,
esperando encontrar o que decidira querer,
mas que não ainda aparecera naquele viver,
poderia contemplar então o que seria,
pois agora estava ali aparecido.
Era ela, querendo também ser,
Aparecida.

Terça-feira, Julho 17, 2007

Sins Disfarçados

Eu sei minimamente
o que ela sentiu.
eu ouvi sua respiração
acelerar-se
até, por fim,
a sensação desfazer-se.
O que a mim restou
então,
foi um não resoluto,
daqueles que mascaram
os sins da emoção.

Sábado, Julho 07, 2007

O último lugar

Sua mão amassava o lençol branco,
tentando superar a margem
entre o prazer e o doer,
entre o ir e o desistir,
entre um porém sussurrado
e um sim silencioso.
Decidiu-se então
pelo novo caminho,
mesmo sem saber
como voltar.
Ela encontrou o mar.

Domingo, Março 18, 2007

Asas de cera

Ela já sabia.
Veio leve.
No céu, as nuvens se adensaram.
Nós nos beijamos ardentemente,
e a atmosfera
se fez daquela cor
que nem o amanhã
pode acinzentar

Domingo, Fevereiro 25, 2007

PERLES

Je ne m’ose pas
J’observe seulement
La sandale
La cuisse
La jupe
Le symbole hindou
L’ornement
La nuque
Mais je ne m’ose pas
J’observe seulement

Domingo, Janeiro 14, 2007

Na saída

Eu,
concentrado,
pisando em folhas secas.

Ela,
de encontro a mim,
fitava seu rumo,
mas desviou o olhar.
Desviou sim.

E eu não devolvi o sorriso.

Terça-feira, Novembro 28, 2006

As asas deste mês

Ela detém todas as belezas em si.
Porém nada demasiado,
para não cansar os olhos de quem a observa.
Exibe suas imperfeições com tanta suavidade
que eu reafirmo o que aquele francês dissera:
"A simetria ficou para Deus".
E eu O agradeço por concebê-la tão humana,
mas sem aquela dureza típica da humanidade.
Ela é leve...
e me acorda desse poema
com o barulho apressado
do seu arrastar de pés.

Domingo, Novembro 12, 2006

Nessa

Aconteceu daquele jeito:
sem ser pra acontecer,
sem se saber que aconteceria.
Mas houve, de fato, algo.
Conjugaram-se no plural.
Um plural inconcebível.
Mas eram, estavam, foram, estiveram.
E saíram.
Ela
catando as estrelas
que caíam.
Ele
memorizando aquele cheiro
de lençol limpo.

Domingo, Outubro 22, 2006

Eri

Perdidos naquela imensidão branca,
seus olhos negros se perdiam nos meus
tão timidamente,
e ao redor da boca
músculos imperceptíveis se moviam
dando vida a um sorriso
maravilhosamente indeciso.

Terça-feira, Outubro 17, 2006

Eclipse

Você encobriu minha luz
e de mim fez sombra,
a sombra da sua tez anoitecida.
Mas há sempre um momento
em que os astros desalinham,
e a sua noite vai escurecer
outros hemisférios.

Sábado, Outubro 14, 2006

Saturno

Eu era menino
lá em são José.
O sol não se punha.
Não sei se era assim
porque eu era menino
ou porque era em São José
aquele horizonte.
Sei, sim,
que me preocupei demais
com esses dias tão longos
e mais de oito décadas
não percebi.

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

Respire

Ela parecia se afogar.
Mas era apenas um riacho...
tão raso.
Tocou o chão com os pés
e tomou impulso.
Enfim encontrou o ar.

Domingo, Outubro 08, 2006

Sobre a morte de outro homem

Desta vez,
a rua estava vazia.
Os seus amigos
já não eram tantos.
Não os vivos.

Sábado, Outubro 07, 2006

Pedaço de lembrança

Suas mãos,
unhas ligeiramente peroladas,
e seus pés,
tensos pelos calcanhares.

Sexta-feira, Outubro 06, 2006

Seja de verdade

Vou deixar a porta entreaberta,
talvez você queira me visitar.
Seja você quem for.
Seja qualquer o dia
que você vier.
Mas, por favor,
seja de verdade.